Em sonho sonhos distantes,
em barcos ausentes, velozes, ondeantes,
paisagens vivas, longe, diferentes.
Eu sonho sempre. Sonho...

                                   Josué de Castro

 

Médico, cientista geógrafo e antropólogo, escritor e crítico literário, professor, deputado federal por dois mandatos (1954-1962), Prêmio Internacional da Paz (1954), fundador de duas Associações Internacionais, de Luta contra a Fome e das Condições de Vida e Saúde, Josué Apolônio de Castro nasceu em 5 de setembro de 1908 e morreu em Paris, em 1973, no exílio a que fora condenado pelo regime militar brasileiro, aos 65 anos. Escreveu obras como Geografia da Fome e Geopolítica da Fome, traduzidas em 24 idiomas.

O Jornal Le Figaro, de 25 de setembro de 1973, escreveu sobre ele: Cheio de flama e de paixão pela grande causa a que ele servia, ajudando, por suas fórmulas marcantes, a tocar de perto as realidades do subdesenvolvimento, a tomar consciência do círculo vicioso no qual se encerrou o mundo, exerceu ele uma influência profunda e duradoura.

Mais do que no Brasil, a imprensa mundial rendeu uma sentida homenagem ao brasileiro e pernambucano que dedicou sua vida, sua inteligência inquieta e sua extraordinária capacidade de trabalho a denunciar a pobreza como criação dos sistemas sociais historicamente gerados e a alertar à opinião pública brasileira e do denominado Terceiro Mundo contra as falácias das políticas de desenvolvimento econômico que enfatizavam o crescimento industrial e ignoravam a agricultura voltada para a produção de alimentos, bem como os angustiantes problemas do homem do campo – o agricultor expropriado da terra e de seus instrumentos de trabalho.

O dilema pão ou aço, a que aludia no final da década de 1950, e o aniquilamento progressivo dos recursos naturais, sem atentar para o equilíbrio ecológico, levariam, não ao extermínio da pobreza e, sim, à ampliação da miséria e da desigualdade social. A atualidade de sua obra aí está, mais viva do que antes: o desnudamento do mito da industrialização e da urbanização a qualquer preço.

O chamado globalitarismo, o fortalecimento do neoliberalismo e os processos de privatização estão aumentando a miséria na maior parte do mundo. O desemprego na cidade e no campo, as famílias que moram na rua, o aumento do número de sem-terra e de sem-teto são exemplos da intensificação da exclusão social.

No Brasil do começo do século XXI, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a parcela constituída por 1% dos mais ricos da população detém 13,8% da renda total, enquanto os 50% mais pobres detém somente 13,5%. Ou seja, uma pessoa rica ganha mais que 50 pessoas pobres. Trinta e dois milhões de brasileiros estão abaixo da linha de pobreza e enfrentam a cada dia o problema da fome. Ainda, os dados do IBGE (2006) registram que 40% da população brasileira ou 72 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar.

Por meio dos estudos da fome, Josué de Castro dimensiona suas análises em outros temas como a reforma agrária, a ecologia, o subdesenvolvimento, as desigualdades sociais. A fome é o problema ecológico número 1, já que todo ser vivo precisa se alimentar para se manter vivo. A questão ecológica incorpora a dimensão social (estrutura fundiária) e a cultural (regimes alimentares, por exemplo). Josué vê o ambiente inteiro.

(Bernardo Mançano Fernandes e Carlos Walter Porto Gonçalves)