Nos frutos resistentes ao clima do cerrado, onde se encontra a biodiversidade mais rica do planeta, está a mesa farta para as novas descobertas da ciência. Cagaita, mutamba, mamacadela. Nomes que muita gente nunca ouviu falar. Há pouco mais de 10 anos também eram desconhecidos da ciência. O poder funcional estava apenas na tradição popular. Agora, os benefícios para a saúde começam a ter o aval da ciência. Pesquisas recentes comprovam as maravilhas da jabuticaba, da gabiroba e do muricy.

A jabuticaba, fruta considerada um tesouro de Minas Gerais, foi parar nos laboratórios de pesquisa científica da Universidade de Campinas. A casca da jabuticaba Sabará – um tipo abundante na cidade mineira de Sabará - foi transformada em pó e oferecida como dieta para ratos, a fim de se estudar e avaliar suas propriedades nutritivas.

O resultado apresentado foi uma diminuição de 50% do colesterol desses animais, uma redução de 10% da glicemia e a diminuição de 30% dos radicais livres do sangue desses animais. A polpa é rica em açúcares e a casca contém compostos fenólicos, como as antocianinas, que dão a cor escura à fruta. Os compostos fenólicos diminuem a absorção dos açúcares e as fibras aceleram a velocidade do trato gastrointestinal, que diminui a probabilidade do organismo absorver os açúcares. Os compostos fenólicos podem prevenir doenças como o diabetes e o câncer, por exemplo, sempre associados a um estilo de vida saudável, alertam os pesquisadores. Rica em cálcio, ferro e vitaminas B e C, a jabuticaba faz bem para a pele, para os cabelos e ativa a circulação do sangue.

Mário Maróstica, membro da equipe de cientistas, conta que a pesquisa foi publicada numa revista cientifica americana e que, no momento, faz-se a avaliação no organismo humano. É possível prescrever e observar numa quantidade calculada de 10 a 15 jabuticabas com a casca, por dia - mais ou menos 100 gramas - que os resultados alcançados nos humanos são semelhantes. 

Nos estudos da Unicamp em parceira com a Universidade de Cornel, nos Estados Unidos, o muricy se revelou um potente antiinflamatório. O potencial está na casca. Como o cerrado brasileiro é pobre em chuva, isso pode explicar que a proteção está na casca, afirmou a pesquisadora Luciana Malta. No muricy encontramos o resveratrol, a catequina e o ácido ferrúlico. A presença desses compostos está relacionada com a diminuição da incidência de doenças crônico-degenerativas como o câncer, o mal de Parkinson, o diabetes e as doenças do coração. Esses compostos são ainda uma forma de prevenção e não de tratamento.

Já, a gabiroba revela um poder antioxidante dez vezes maior quando comparada à amora e framboesa, frutas muito consumidas nos Estados Unidos.

Bonito como só ele, o cerrado brasileiro apaixona seus herdeiros, raizeiros e colecionadores de conhecimento fitoterápico, que se regalam com frutas doces em toda época do ano. A pesquisa incluiu também outros frutos como a guapeva, o gravatá e o quiabo. Os extratos das frutas foram testados e se mostraram eficazes contra a multiplicação de células do câncer. As frutas apresentaram um início desse potencial anti-câncer, sendo que a que mais se destacou foi a guapeva, cuja fonte mais rica está na casca. As pesquisas revelaram acentuada diminuição das células do câncer de próstata e de mama.

O gravatá, usado contra úlceras e tuberculose, era arrancado do pé e as pessoas que apresentavam esses sintomas o comiam assado.

Antigamente, o cerrado serviu para a indústria do sorvete, que tinham nele uma reserva inesgotável para a produção dos palitos. Hoje, pelo rastro da sabedoria popular, a medicina vem conquistando seus avanços. Tudo o que a ciência vem descobrindo com as pesquisas, os antigos já sabiam.

O quiabo foi considerado pelos pesquisadores da Unicamp como o melhor alimento para controlar o nível de açúcar no sangue. Revelou-se um vegetal completo. Rico em vitaminas, sais minerais, proteínas e principalmente em fibras. No laboratório foi transformado em pó e incorporado na dieta de um grupo de ratos diabéticos. Enquanto que outro grupo comia ração comum. Ao final de 30 dias o cardápio do quiabo em pó fez a diferença.

Além da taxa de glicemia – taxa de glicose no sangue - ter diminuído nesses animais, houve também efeito positivo na absorção do colesterol. O nível de colesterol foi menor nos animais alimentados com a dieta de quiabo, exatamente porque a fibra é importante na dieta, afirmou a pesquisadora Vera Sônia Nunes da Silva.

O organismo dos ratos é parecido com o dos humanos. Os ratos da dieta à base de quiabo comeram 30% menos quantidade e ficaram mais saciados, por causa das fibras, que são indispensáveis para os diabéticos. O quiabo proporciona o esvaziamento gástrico mais lento. A pessoa fica mais tempo saciada e quando o alimento chega no intestino, será liberado mais rapidamente. Além de a fibra do quiabo diminuir a absorção do açúcar no sangue. O que muita gente não imagina é onde estão concentradas as fibras do quiabo. A parte mais rica do fruto é aquela que as pessoas costumam jogar fora: a baba.

A pesquisadora foi até as casas dos produtores, ensinar as famílias a preparar o quiabo sem perder as propriedades nutritivas. A maioria das pessoas pensa que a semente é que produz a baba. Não. A baba está na casca. Ao quebrarmos a casca, percebemos logo a liberação da baba. Quanto mais cortarmos a casca do quiabo, mais baba é liberada. Então, o ideal é cozinhar o quiabo inteiro. Deixá-lo ferver de 3 a 5 minutos e depois dá uma ducha de água fria imediatamente, para conservar todas as propriedades nutritivas. O azeite, que reduz o mau colesterol, é o tempero ideal.

As variedades de quiabo para as pesquisas foram colhidas das plantações dos agricultores que conhecem os segredos da boa safra. Acostumados com o que fazem, os agricultores sabem que o quiabo deve ser plantado no sábado e observar a lua. Se plantar na lua minguante, o fruto nasce torto.